Rádios online em extinção
No dia 3 de março de 2007, o CRB (Copyright and Royalties Board), grupo que coordena as ações referentes a direitos autorais dos EUA, mudou as regras do jogo para as rádios da Internet, aumentando a taxação em até 1200%. A partir do dia 5 de julho de 2007, se nada for feito, inúmeras rádios online irão fechar as portas. Por conta de um pedido da RIAA, a famigerada associação da indústria de gravadoras que já causou fechamentos de vários sites e serviços de P2P, como o lendário Napster, o CRB ignorou o fato que as rádios online já são obrigadas a pagar o dobro do que pagam as rádios por satélite em relação � execução das músicas, e aumentaram as taxas ainda mais. Em 2005, a taxa era de 0,0007 de dólar por cada música executada por streaming. Pela nova regra, em 2010 a taxa será de 0,0019 centavo. Parece pouco, não é? Mas só que este modelo de taxação é um repeteco do mesmo modelo que é aplicado nas rádios tradicionais, como as rádios FM que você escuta no seu carro. E é aí que o bicho começa a pegar. Uma rádio tradicional transmite suas músicas para sua audiência, e paga pela execução daquela música. Só que apenas uma música é transmitida por vez. Ou seja, se ela tem 1 milhão de ouvintes, ou apenas 3, todos eles estarão ouvindo a mesma música. Rádios online que oferecem serviço do tipo “on demand”, onde você escolhe o que quer escutar, como a Last.fm e a Pandora, por exemplo, estão transmitindo diferentes músicas pra cada ouvinte ao mesmo tempo. Se um deles tiver uma audiência de 1 milhão de ouvintes ao mesmo tempo, provavelmente estará transmitindo quase 1 milhão de músicas diferentes ao mesmo tempo. A grosso modo, é como se ela tivesse 1 milhão de estações. E pagaria 1 milhão de vezes mais impostos. “Pirate Radio”, arte por Asaf Hanuka (www.asafhanuka.com) Para rádios online menores, havia uma opção de pagar um percentual sobre o que a rádio faturava, uma opção muito mais justa, afinal a quantidade de músicas que se executa por dia em cada estação é a mesma, independente do porte da rádio. Porém isso acaba também com a nova regra. O grupo SoundExchange, entidade responsável pelo recolhimento dessas taxas, diz que quer pegar os peixes grandes – as rádios online de empresas como AOL e Yahoo!, por exemplo. Mas o fato é que com esta nova forma de tarifação, as rádios pequenas já vão levar uma porrada muito grande nos seus custos de operação, e quanto mais crescerem suas audiências, pior a situação fica. Sim, pois ter mais audiência pra uma rádio online significa ter mais custos, afinal cada ouvinte consome banda dos servidores que transmitem o áudio – diferentemente das rádios convencionais, onde o sinal trafega livre pelo ar, e onde um aumento de 15% de audiência de um mês pro outro não muda absolutamente nada em termos de custos. Outro ponto é que operar uma rádio tradicional requer maquinário e profissionais dedicados. O tamanho da operação é sempre proporcional ao porte da rádio. Já uma rádio online dá muito menos trabalho, e não � toa temos rádios enormes como a Last.fm, que hoje é a maior da Internet, com menos de 100 funcionários. A Pandora tem menos de 40 funcionários. São empresas pequenas e que não faturam tanto, pois conteúdo em áudio ainda é difícil de ser rentabilizado, já que a tecnologia atual para entregar anúncios ainda não é tão eficiente como a que é usada para entregar banners e links patrocinados em páginas web. SaveNetRadio: contagem regressiva para o em que a música morre E outro ponto importantíssimo: se os usuários escolhem o que querem ouvir, como replicar a indústria do jabá, que é o que sustenta canais de tv e rádio abertos pelo mundo todo? Sem poder empurrar as boy bands, grupos de axé e rappers metidos � marginal na goela abaixo da audiência, como se ganha dinheiro? A situação fica ainda mais feia pois estas rádios já pagam direitos de execução aos artistas. E aí você se pergunta: mas que raio de briga é essa então? Acontece que o grupo SoundExchange fazia parte da famigerada RIAA até 3 anos atrás. Ou seja, sua diretoria ainda está carregada de tubarões das gravadoras. Que querem morder um pedaço maior do bolo, principalmente depois da virada de mesa das lojas de música online que concorrem com o iTunes, da Apple. Pois, para concorrer com a gigante da música digital e dona do iPod, a solução para as outras lojas digitais foi casar a oferta de rádio online e assinatura: você paga uma mensalidade fixa para consumir o quanto quiser de música. Isto, é claro, não agradou às gravadoras, que não tinham outra saída, pois ninguém vai concorrer vendendo música no varejo com a Apple nesta altura do campeonato. Bom, este é o cenário desenhado. A partir do dia 05 de julho de 2007, alguma coisa vai acontecer: ou as apelações ao congresso americano vão gerar algum efeito, ou a SoundExchange vai finalmente passar a cobrar suas taxas pela nova regra – que já está em vigor desde o começo do ano, ela apenas “foi legal” e deu esse prazo de carência pra que as rádios online arrumem a casa – mas malandramente, ela vai cobrar os atrasados. Aqui no Brasil não temos muito o que temer, mas sabemos que todas as sacanagens que acontecem lá sempre são repetidas aqui, colonizados disfarçados que somos. É torcer pra que o movimento SaveNetRadio consiga conquistar mais e mais adeptos, e que mais uma vez, as comunidades que perambulam a Grande Rede façam algo pra salvar uma das mais clássicas vantagens de se acessar a Internet: poder escutar música onde o dial do seu rádio nunca sonhou alcançar. ...